Hipnóticos e mortalidade

Qualquer fármaco deve incialmente ser testado quanto a segurança e ausência de efeitos colaterais relevantes ou frequentes. Apesar disso, muitos casos de associação de uma droga e mortalidade já foram registrados após sua comercialização, quando esta é então utilizada em larga escala. Por este motivo, a vigilância sobre o efeito de qualquer fármaco deve permanecer após o início de seu uso clínico.
Recentemente, um interessante artigo (1) avaliou a associação entre o uso de hipnóticos e aumento de mortalidade. Para esse propósito foram analisados retrospectivamente 10529 pacientes que por algum motivo utilizaram hipnóticos versus 23676 indivíduos controles (sem uso do fármaco) acompanhados em média por 2.5 anos.
A conclusão foi de associação entre uso de hipnóticos e risco de mortalidade, sendo esta inclusive aumentada se a dose ou quantidade de hipnóticos utilizados durante um ano fosse maior (efeito dose dependente). Foram incluídos hipnóticos diversos, como o zolpidem (o mais prescrito nessa análise), alguns anti-histaminicos sedativos e outros representantes dos benzodiazepínicos. No grupo de pacientes com uso mais intenso de hipnóticos também foi encontrada maior relação com diagnóstico de câncer (35% mais comum).
Na população gera do estudo, os autores encontraram aumento de mortalidade no grupo de usuários de hipnóticos com hazardratio = 4.6. Mesmo nos indivíduos com uso eventual da medicação (1-18 doses/ ano) há aumento na hazardratio= 3.6 de mortalidade. Esse achado persistiu em qualquer faixa etária, mas a maior diferença entre mortalidade de usuários versus não usuários ocorre na faixa etária de 18- 55 anos.
Este não é o primeiro estudo sobre essa associação, e outros também demonstraram que o uso de hipnóticos / sedativos está associado a risco maior de mortalidade. No entanto o estudo citado se destaca pelo grande numero de pessoas estudadas.
É fundamental notar que a associação descrita não significa necessariamente uma relação causal, apenas que duas ocorrências são existentes com freqüência no mesmo individuo (no caso, uso de determinado fármaco e maior mortalidade). Para tentar afastar variáveis de confusão os grupos foram ajustados para idade, comorbidades, idade, sexo, tabagismo, etilismo, etnia, etc. Mesmo após essa análise o uso dos hipnóticos manteve-se associado a maior mortalidade.
A real causa dessa associação não foi esclarecida mas possibilidades como overdose, associação com álcool, aumento na incidência de depressão / suicídio, acidentes, apnéia do sono, refluxo gastroesfoágico e pneumonias aspirativas são citados.
Os distúrbios do sono, como a apneia do sono e personalidade ansiosa são fatores de risco para complicações cardiovasculares. Aparentemente, os indivíduos estudados tinham algum distúrbio do sono e o aumento de risco de mortalidade pode então estar relacionado a este distúrbio, ao uso do fármaco ou a alguma variável não considerada na análise. De qualquer forma a mensagem mais importante desse artigo reforça a associação de distúrbio do sono/ uso de fármacos com aumento de risco ao paciente. A auto medicação, apesar de não citada no artigo, certamente também contribui para o aumento desse risco.
O uso dos hipnóticos e sedativos, assim como de qualquer substancia terapêutica, deve ser prescrito por profissional habilitado que pese risco benefício da intervenção, garantido a segurança do paciente.

Anúncios

Sobre arritmiacardiaca

cardiologista e arritmologista www.niltoncarneiro.com.br
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s